Hanói derrete e eu bato leite com sal.
São seis e dez da tarde e o ventilador do cà phê gira tão devagar que parece que reza. O local é um tubo estreito na rua das flores de leite, com a porta escancarada e o ar parado como um cachorro deitado. O suor escorre pela minha nuca e se enfia entre as minhas omoplatas. Sirvo um copo de cà phê muối a um rapaz de capacete de obra e limpo as mãos no avental. Atrás do balcão, a dona Hạnh conta o troco com os dedos úmidos.
—Thu, fecha às sete, que hoje tem corte —diz sem levantar os olhos.
—Corte?
—Das seis da tarde às quatro da manhã. Avisaram pelos alto-falantes do bairro. Doze horas.
Olho o cartaz do teto, o ventilador que mal move o ar, o congelador onde guardamos o gelo. Doze horas sem luz em julho em Hanói é uma condenação. A dona Hạnh continua contando moedas como se tivesse me dito que vai chover.
Moro no número 14 do beco, terceiro andar, com a minha mãe e com a lembrança do meu pai enfiada num armário. Minha mãe tem o joelho ruim e o costume de me chamar à noite para que eu lhe ponha a bolsa de gelo. Antes de subir, compro duas bolsas de gelo na banca da dona Bích, que me dá com cara de funeral.
—Doze horas, Thu. Doze. Minha fruta vai apodrecer.
—Eu sei, cô.
—E você, tem velas?
—Tenho três.
—Então põe no balcão, que se veja que estamos vivos.
A dona Bích é a proprietária moral do beco. Sabe quem deve dinheiro, quem engana quem e quem deixa o lixo fora de hora. Eu a quero como se quer a um semáforo: porque está e porque para o trânsito.
Subo os três andares com as bolsas de gelo pingando no meu pulso. O patamar cheira a molho de peixe e a roupa no varal. No segundo, a dona Bích tosse atrás da porta. No terceiro, minha mãe dorme a sesta com o rádio ligado.
Às sete menos um quarto a luz acaba. Não há piscada: há um estalo e o mundo fica surdo. O rádio se apaga no meio de uma frase. O ventilador da sala desacelera e para. Minha mãe acorda e diz meu nome.
—Estou aqui, mãe.
Ponho gelo no joelho dela, abro a janela, ponho o leque de mão no peito dela. Depois levo uma vela ao balcão e a acendo. A chama treme, se agacha, se levanta. A rua está escura de cima a baixo, um poço negro com cheiro de asfalto quente. Alguém grita um endereço, alguém ri, uma criança chora e a mãe dela manda que se cale.
À minha frente, no balcão do prédio em frente, a quatro metros e meio, há uma silhueta.
É um homem. Está de pé, com os braços apoiados no parapeito, e me olha. Não distingo o rosto. Distingo o contorno: ombros largos, camiseta de alcinha, um short. Atrás dele, um ventilador parado como mais um móvel.
Ficamos assim um tempo, duas manchas no escuro.
—Você também tem vela? —digo, porque não sei ficar calada.
A voz me chega baixa, tranquila, com um sotaque que não sei situar.
—Tenho duas. E um isqueiro que não acende.
—Como vai acender se não tem pedra?
—Boa pergunta.
Ouço um estalo, outro, outro. Depois um palavrão.
—E então? —pergunto.
—Que você tem razão. Falta a pedra.
Rio. A risada me escapa antes de pensar se devo. Ele não ri, mas algo no ar muda, como quando alguém deixa de estar de pé e se senta.
—Como você se chama? —pergunto.
—Dũng. E você?
—Thu.
—Thu. —Diz devagar, como se anotasse em algum lugar—. Você tem água, Thu?
—Tenho duas bolsas de gelo e um galão pela metade.
—Eu tenho um galão inteiro e nada de gelo. Te troco.
—Como você vai me passar, se estamos em prédios diferentes?
—Com uma corda.
E assim começa. Ele leva vinte minutos para achar uma corda, porque na casa dele ninguém sabe onde está nada, e eu passo esses vinte minutos debruçada no parapeito, morta de calor, olhando uma vela se mover de um balcão a outro sem chegar a nenhum. Quando finalmente aparece a corda, amarrada a um balde, o galão sobe e o gelo desce, e o balde volta a subir com a bolsa de gelo dentro e uma lata de cerveja que não pedi.
—Não bebo cerveja —digo.
—Eu também não. Mas estava gelada.
Abro. Está morna.
—Dũng.
—Sim?
—Está morna.
—É que demorou.
Rio de novo e ele faz um som que deve ser uma risada de mecânico, curta, com o ar pelo nariz.
Falamos até as dez. Falamos da onda de calor, dos preços do gelo, de um vizinho do quarto que põe nhạc vàng no volume máximo e da dona Bích, que do segundo andar manda a gente calar cada vez que rimos.
—Você a conhece? —pergunto.
—Ela me fia bananas há oito anos.
—Então ela tem carinho por você.
—Ela me tem fichado.
Em algum momento, entre risadas, me escapa que cuido da minha mãe. Conto sem querer, como se contam as coisas no escuro.
—Ela está mal? —pergunta.
—O joelho. E a cabeça, às vezes. Principalmente o joelho.
—E você, quem cuida de você?
Ninguém nunca me pergunta isso. Fico calada um segundo a mais.
—Oito gatos —digo—. Os do beco. Dou comida a eles às onze.
—Às onze já não tem luz.
—Por isso mesmo. No escuro eles se comportam melhor.
—Como se chamam?
—Não se chamam. Se contam.
—E quantos vão?
—Hoje cinco. Ontem sete. Na terça, oito.
—E o que acontece quando chegam a oito?
—Que já está. Que comeram tudo.
Ele ri de verdade desta vez, e a risada sai grave e dura. A dona Bích tosse dois andares abaixo, como um aviso.
Às onze desço com a vela e a tigela de arroz. No beco não se vê nada. Os gatos chegam com os olhos acesos como moedas: cinco, seis, sete. O oitavo, um malhado com a orelha partida, fica no degrau e me olha como se eu lhe devesse dinheiro. Conto em voz alta e Dũng conta comigo do balcão.
—Oito —diz—. Já está.
—Já está.
E não sei por quê, os dois ficamos um momento calados, como se tivéssemos terminado um trabalho juntos.
A vela no meio
À uma da manhã o ar virou uma coisa sólida. Minha mãe dorme com a janela aberta e o leque na mão, e eu não consigo dormir. Saio ao balcão com a última vela e a ponho no chão, entre os vasos de manjericão. A chama se estica para cima, para o céu sem estrelas.
—Thu?
—Aqui.
—Não dorme?
—Não.
—Eu também não. —Uma pausa—. Você está com calor?
—Estou com um calor que me tira o sentido.
—Abaixa a vela ao chão. Assim o ar chega ao seu rosto.
Faço. A chama fica na altura dos meus joelhos, e do balcão em frente a luz bate no meu queixo, no meu pescoço, na minha camiseta. Ele também abaixou a dele, e agora nos vemos as caras pela metade, duas meias-caras amarelas flutuando no escuro.
Tem a cara de alguém que conserta coisas: testa larga, sobrancelhas retas, uma barba de três dias mal feita. Tem trinta e tantos. Tem os olhos quietos.
—Agora te vejo —digo.
—Eu te via antes.
Toco o cabelo, que estou prendendo com um grampo, e percebo que estou de camiseta de dormir, uma camiseta velha, e que o contorno do sutiã aparece através dela. Não me importo. Está calor demais para me importar.
—O que você faz? —pergunta.
—Nada. Te olhar.
—Isso não é nada.
—Dũng.
—Sim?
—Você está muito longe para discutir.
Ele se apoia no parapeito com os cotovelos, se inclina, e a distância de repente fica mais curta e mais longa ao mesmo tempo.
—Sabe o que é o pior? —diz—. Que amanhã a luz volta e isso acaba.
—Faltam três horas.
—Pois é.
Fica me olhando. Tem uma mão pendurada sobre o parapeito, com os dedos abertos, e eu olho essa mão como se olha um lugar aonde se quer ir. Então me vem a ideia.
—Me passa a vela.
—Como?
—Com a corda. Me passa a vela.
Amarra no balde, desce, sobe. Quando a tenho no meu balcão, com as duas chamas juntas, o ar entre os dois prédios parece mais quente. Ele ri baixinho.
—Agora tenho menos luz que antes.
—Mas eu tenho mais. E você me vê melhor.
—Isso é verdade.
Me apoio no parapeito igual a ele, com os cotovelos, e a camiseta estica nas minhas costas. Sei o que se vê. Sei que ele está olhando.
—O que você vê? —pergunto.
—As costas. A nuca. Um grampo de cabelo.
—Que chato.
—A barra da camiseta —diz, mais baixo—. Um pedaço de você.
Levo a mão à barra da camiseta e a subo um palmo, só um palmo, para que o ar chegue. O tecido fica arregaçado sobre a cintura. Ele não diz nada. Ouço como se move, como se inclina mais, e sei que está olhando a faixa de pele que acabei de deixar à mostra.
—Thu.
—Sim?
—Me mostra as mãos.
Estendo os braços para ele, com as palmas abertas, por cima do parapeito. É um gesto de criança, de «olha, não estou com nada». Ele faz o mesmo. Nossas mãos ficam no ar, a quatro metros e meio, dois pares de mãos amarelas pela vela.
—Mais perto —digo.
—Não consigo.
—Consegue sim. Se inclina.
Se inclina até o parapeito cravar no estômago dele. Faço o mesmo. Agora há três metros, talvez dois e meio. A ponta dos meus dedos procura a dele e não alcança. Rimos os dois, com as mãos esticadas como tontos.
—Precisamos de um pau —diz ele.
—Ou de braços mais longos.
—Ou de um prédio mais estreito.
Baixo os braços. Ele também. E então me vem outra ideia, e desta vez me dá vergonha.
—Dũng, você tem uma vassoura?
—Tenho três.
—Me passa uma.
—Para quê?
—Para te tocar.
Fica calado um segundo. Depois some do balcão e volta com uma vassoura de cabo longo. Passa pela corda, sobe pelo balde, e quando a tenho na mão ele a apoia no parapeito, inclinada para mim como uma ponte. Faço o mesmo com a minha. As pontas dos cabos se tocam.
—Oi —digo.
—Oi.
Empurro o cabo para a frente e o dele cede. Ele empurra e o meu cede. Brincamos um tempo de nos empurrar, e cada empurrão é uma risada, e cada risada é um pouco mais de ar quente entre nós.
—Isso é ridículo —diz.
—Isso é a melhor coisa que me aconteceu em um mês.
—Em um mês?
—Em um ano.
E aí a brincadeira acaba. Ele para de empurrar. O cabo fica quieto, tocando o meu, e a ponta dos dois paus se sustenta sozinha no ar como uma coisa viva.
—Thu —diz—, vou fazer uma bobagem.
—Faça.
Pega a vassoura com as duas mãos, levanta, e com a ponta do cabo toca meu ombro. É um toque de nada, um pau de madeira no ombro, e meu braço inteiro se arrepia. Desce devagar, pelo braço, pelo cotovelo, pelo pulso, e para na palma da minha mão aberta.
—Aí —digo—. Aí você alcança.
—Aí sim.
Move a ponta pela minha palma, em círculos, e é ridículo que um cabo de vassoura me faça apertar as coxas. Depois sobe pelo antebraço, pelo cotovelo, pelo ombro de novo, e desvia para o pescoço. Toca meu pescoço com a ponta do cabo e eu jogo a cabeça para trás sem querer.
—Você gosta? —pergunta.
—Gosto.
Desce pelo esterno. Para na barra da camiseta, no lugar onde começa o decote, e espera ali, quieto, como pedindo licença. Me inclino um pouco para a frente e o cabo entra um centímetro. Depois dois. A madeira está morna pela mão dele.
—Dũng.
—Sim?
—Você está me tocando com uma vassoura.
—Eu sei.
—E eu gosto.
O ar escapa dele. A ponta desliza para baixo, pelo tecido, até a barra da camiseta, e depois por baixo, pela faixa de pele da cintura, e fica ali, apoiada no meu umbigo, tremendo um pouco porque ele também está tremendo.
—Não alcanço mais embaixo —diz.
—Alcança sim.
—Não, de verdade. Olha.
Empurra um pouco e o cabo se separa. Ficou curto. Os dois olhamos o vão de ar entre a ponta do pau e minha cintura como se fosse um abismo.
—Precisamos de outra coisa —digo.
—Um cabo.
—Um cabo.
E aí me vem o cabo. Ele tem um rolo de cabo de freio na oficina lá embaixo, ou pelo menos diz, e desce para buscá-lo com a vela na mão. Eu fico no balcão, com as duas velas juntas, ouvindo como ele abre a persiana metálica e como remexe caixas. Demora dez minutos. Quando volta, traz um cabo fino e flexível, e o amarra a uma chave de fenda para que pese.
—Puxa você —diz—. Eu seguro.
Passo pela corda e subo. A ponta do cabo fica na minha mão como uma serpente. Ele fica com a outra, tenso, e me olha.
—E agora?
—Agora você me toca com isso.
—Onde?
—Onde quiser.
O cabo é macio e pesa o suficiente. Ele o move devagar, com uma precisão de mecânico, e roça meu pescoço, a clavícula, o início do peito. Engata na barra do decote e ele puxa com cuidado e o tecido se abre. Aparece meu sutiã. Aparece mais de mim do que se viu em meses.
—Thu.
—O quê?
—Você está muito perto.
—Você também.
Move o cabo para baixo, pela barriga, e eu fico muito quieta. Para no elástico do short. Espera. Eu não digo nada. Ele puxa o elástico um dedo, dois, e o cabo desliza por baixo, sobre a pele do baixo ventre, e aí já não há brincadeira possível.
—Estou molhada —digo, porque é verdade e porque no escuro se pode dizer.
—Já notei.
—Não notou. É um cabo.
—Noto por como você puxa.
Sorrio. Ele sobe o cabo outra vez, devagar, até o decote, e o engata na alça do sutiã. Puxa. A alça estica e se separa do ombro, e depois ele solta de repente e me dá uma chicotada suave na pele. Rio e me queixo ao mesmo tempo.
—Desculpa.
—De novo.
—Você gostou?
—De novo, Dũng.
Faz de novo, e de novo, e na quarta a alça escorrega de vez e meu ombro fica de fora. Ele fica olhando.
—Me mostra o outro —digo.
—Como?
—O ombro. Me mostra o ombro.
Ele abaixa a alça da camiseta com a mão livre. Tem o ombro moreno, redondo, com uma cicatriz pequena na parte de cima. Fico olhando como se fosse uma coisa que se pode comer.
—Mais —digo.
—Mais?
—Abaixa a camiseta.
Abaixa. Aparece o peito, o esterno, um pedaço de barriga. O cabo cai da minha mão e ele solta o dele, e os dois ficamos assim, nos olhando através das velas, com a roupa meio caída.
—Vou descer —digo.
—Para a rua?
—Para a rua.
—Tem um portão. O do prédio.
—Eu sei.
Desço com a vela. A escada está negra e meus pés descalços soam nos degraus. No segundo, a dona Bích tosse dormindo. No primeiro, o portão está fechado com um cadeado, mas o cadeado é dos que se abrem por dentro com um ferrolho. Abro, saio ao beco, e Dũng já está atravessando a rua com a vela dele.
Ficamos a um passo.
É mais alto do que parecia. Tem o peito subindo e descendo. A vela ilumina a barba mal feita e a boca, que é uma boca larga, de lábio fino, e que agora está entreaberta.
—Oi —digo.
—Oi.
—Passamos cinco horas falando e não nos tocamos.
—Agora sim.
Levanto a mão. Ele levanta a dele. Tocamos os dedos no ar, como antes, mas agora se tocam de verdade, e o primeiro contato é tão elétrico que os dois soltamos o ar ao mesmo tempo. Os dedos dele se fecham sobre os meus. Ele me puxa um pouco para si. Eu dou o passo.
A primeira vez é com as mãos. Ele põe as palmas na minha cintura, por baixo da camiseta, e a pele se arrepia inteira. Eu ponho as mãos no peito dele, no esterno, e sinto o coração batendo. Nos tocamos como dois cegos que aprendem um mapa: ele sobe pelas minhas costas, pelas costelas, e para na barra do sutiã; eu desço pela barriga dele e paro no elástico do short.
—Posso? —pergunta.
—Pode.
Ele desabotoa meu sutiã com uma só mão, coisa que um mecânico saberia fazer, e o abaixa pelos meus braços. O tecido cai no chão. Ele fica olhando e depois se agacha e me beija o peito, por cima do mamilo, e o calor da boca dele é insuportavelmente bom.
—Aqui não —digo—. O portão.
Entramos no prédio. Ele fecha o portão com o ferrolho e apaga a vela dele com um sopro. Ficamos com a minha, no chão, e com a escada negra ao redor. Ele me empurra suavemente contra a parede do primeiro lance e me beija de verdade, com a boca aberta, com a língua, e eu pego o rosto dele com as duas mãos e devolvo o beijo como se o quisesse há anos.
Ele abaixa minha camiseta pelo outro ombro e a tira. Abaixa meu short e minha calcinha de um puxão. Põe a mão entre minhas coxas e a desliza para cima, e quando me toca escapa um som dele contra a minha boca.
—Thu.
—Cala a boca.
Me toca devagar, com dois dedos, em círculos, e eu me agarro aos ombros dele e jogo a cabeça para trás e mordo o lábio para não gritar. A dona Bích está dois andares acima, com a porta aberta por causa do calor, e cada vez que ele acelera o ritmo eu penso na tosse da dona Bích e seguro a risada.
—Vira —diz.
—O quê?
—Vira.
Me viro. Ele põe a mão na minha nuca e me inclina um pouco contra a parede, e me toca por trás, com uma mão na minha cintura e a outra entre as pernas. É diferente. É mais fundo. Me agarro ao corrimão e empurro contra a mão dele.
—Assim —digo.
—Assim?
—Sim. Assim, não para.
Não para. Move os dedos com uma paciência de homem que conserta coisas, ajustando, buscando, até encontrar o lugar e o ritmo e então o mantém, igual, sem variar, e eu começo a tremer dos joelhos para cima. Escapa um gemido e ele tapa minha boca com a mão livre.
—A dona Bích —diz no meu ouvido.
Rio contra a palma dele e ele continua, e a risada vira outra coisa, um tremor longo que sobe pelas minhas costas e me dobra. Gozo assim, de pé, contra a parede de um prédio, com a mão de um desconhecido na boca e a outra entre as coxas, e quando termino as pernas me escapam e ele me segura pela cintura.
Fico apoiada, respirando. Ele afasta meu cabelo da nuca e me beija ali, na nuca, com a boca aberta.
—Sua vez —digo.
—Não precisa.
—Dũng.
—Que não precisa, de verdade.
Me viro e abaixo o short dele. Abaixo também a cueca e o pego com a mão, e ele solta todo o ar de uma vez e apoia a testa na parede, acima do meu ombro. Está duro e quente e pulsa na palma. Movo a mão devagar, apertando, e ele começa a mover o quadril para a frente.
—Assim? —pergunto.
—Assim —diz com a voz quebrada—. Assim, porra.
Acelero o ritmo e ele morde o próprio antebraço. Tem os olhos fechados e a boca aberta e a vela do chão bate na garganta dele, e vê-lo assim, desfeito, numa escada, me excita de novo. Aperto mais. Ele joga o quadril para trás e depois para a frente, e me pega pelo pulso para que eu não pare.
—Vou gozar —avisa.
—Goza.
Goza com um grunhido baixo, contra a minha mão, com a testa colada no meu ombro, e eu o seguro até ele parar de tremer.
Ficamos assim, colados, suando um contra o outro, com a vela se consumindo no chão.
—Bem —digo.
—Bem.
—Isso não é nada, né?
—Não é nada —diz ele, e me olha—. É um apagão.
As quatro da manhã
Às três e meia subimos ao meu balcão, porque o chão da minha sala é de ladrilho e está fresco, e porque ele disse «vamos sentar onde tem ar» e os dois sabíamos que era mentira.
Minha mãe dorme. Passamos na frente da porta dela com o dedo nos lábios.
Sentamos no chão do balcão, com as costas na parede, e ele põe a mão na minha coxa e eu ponho a cabeça no ombro dele. Falamos de bobagens: dos gatos, da dona Bích, de um cliente que pede café com sete colheres de açúcar. Ele me conta que tem uma oficina na rua de trás e que conserta motos desde os dezenove anos.
—E que motos você conserta? —pergunto, com os olhos fechados.
—De tudo. Honda, Yamaha, o que trouxerem.
—Honda Super Cub?
—Principalmente Super Cub. São as que mais tem.
Fico um momento com isso. A Super Cub da minha mãe. Azul, de noventa e oito, com a placa dobrada. Ela a leva a uma oficina da rua de trás há sete anos e nunca cobram nada, porque o dono diz que é uma moto que já está paga.
—Dũng.
—O quê?
—Onde fica sua oficina?
—No 7 do beco de trás. Por quê?
Me endireito e olho para ele. Ele me olha sem entender, com a cara tranquila, e de repente vejo algo que não tinha visto: os chinelos. Ele está com eles. São uns chinelos azuis de borracha, velhos, com a sola gasta na borda.
—Esses chinelos —digo.
—O que têm?
—Caíram no beco na primeira noite. Às nove e um quarto. Caíram no balde do lixo e eu te devolvi com a corda.
—Pois é. E você me devolveu molhados.
—Estavam no lixo.
—Estavam no lixo —admite.
Fico olhando para ele. Sete anos. Sete anos levando a moto da minha mãe a uma oficina da qual só conheço o endereço e o preço, que é zero. Sete anos ouvindo minha mãe dizer «o rapaz da oficina é muito bom, Thu, não me cobra» e nunca perguntando como ele se chama.
—Você conserta a moto da minha mãe.
—Conserto muitas motos.
—A Super Cub azul. De noventa e oito. Com a placa dobrada.
A cara dele para. Para de um jeito que dá risada.
—A da cô Thanh?
—Minha mãe.
—A cô Thanh é sua mãe.
—Sim.
—E eu conserto a moto dela de graça.
—Sim.
Ele passa a mão pelo rosto. Depois ri, e a risada sai curta e um pouco tonta.
—Sete anos —diz—. Sete anos e eu não tinha visto sua cara.
—Eu também não.
—E agora?
—Agora —digo—, nada. É um apagão.
E me inclino e o beijo. Ele me pega pela cintura e me senta sobre as coxas dele, e eu fico ali, com os joelhos dos lados do quadril dele, e o beijo se prolonga até os dois esquecermos a moto e os sete anos e tudo.
Ele abaixa minha camiseta outra vez, a que eu tinha vestido de novo, e desta vez a tira de vez. Pega meus seios com as duas mãos e os aperta, e depois leva um à boca e chupa meu mamilo, e eu me agarro ao cabelo dele e jogo o quadril para a frente sem querer.
—Espera —digo—. O chão. O ladrilho.
—O quê?
—Que dentro é mais fresco. No chão da sala.
Entramos. Estendo um tapete no chão da cozinha, junto à porta do balcão, e me deito. O ladrilho está frio nas minhas costas e é uma glória. Ele se deita ao meu lado e me beija o ombro, o peito, a barriga, e desce, e desce, e quando chega embaixo abre minhas coxas com as mãos e me lambe devagar, de baixo para cima, uma vez longa.
Tapо a boca com o braço. A língua dele vai e vem, e depois para no lugar e faz círculos, e eu levanto o quadril e me agarro ao tapete. Ele me pega pela cintura e a prende contra o chão, e continua, e continua, e quando estou a ponto de gozar de novo ele para.
—Canalha —digo.
Ele ri contra mim. Me dá um beijo na coxa e sobe.
—Você tem? —pergunta.
—Na bolsa. Na gaveta da entrada.
Vai buscar. Volta. Põe a camisinha de joelhos, ao meu lado, e eu o olho fazer com o cotovelo apoiado no chão. Depois se deita sobre mim e me beija e se posiciona, e espera ali, na borda, me olhando nos olhos.
—Sim? —pergunta.
—Sim.
Entra devagar. É largo e é lento e eu abro a boca e não sai nada. Para na metade, com a testa na minha, respirando.
—Bem?
—Bem. Se mexe.
Se mexe. Começa devagar, fundo, com o quadril colado, e cada empurrão me arrasta um centímetro pelo ladrilho. Ponho as mãos no culo dele para que não se vá. Ele acelera e eu levanto as pernas e as cruzo nas costas dele, e assim entra mais e ele solta um palavrão contra meu pescoço.
—Thu, que eu vou gozar.
—Não goza.
—Que eu não aguento.
—Aguenta.
Ele baixa o ritmo. Respira. Depois volta, mais devagar, mais fundo, com a cara enfiada no meu pescoço, e assim aguenta, e eu gozo outra vez com a boca aberta e sem ar, tremendo inteira, arranhando as costas dele.
Ele aguenta mais três empurrões e depois se deixa ir com um gemido longo, com todo o peso em cima de mim, e fica ali, me esmagando, e eu não me importo que me esmague.
Ficamos no chão, suando, colados, ouvindo a geladeira da vizinha e um cachorro e o zumbido de um transformador que começa a soar.
—Thu —diz contra meu pescoço.
—O quê?
—Que já vai voltar.
E às quatro em ponto, exatas, volta. A geladeira arranca, o ventilador da sala começa a girar, a luz do corredor acende e nos deixa os dois no chão da cozinha, nus, com cara de tontos, com o cabelo colado na testa.
Nos olhamos.
—Oi —digo.
—Oi.
—Você está muito feio com essa luz.
—Você também.
E rimos, mas já é outra risada, mais curta, mais desajeitada, a risada das pessoas que se viram no escuro e de repente se veem.
A escada do terceiro andar
Ele se veste. Eu visto a camiseta. O cabelo dele ficou em pé e ele tem uma marca do tapete na bochecha.
—Vou indo —diz.
—Pois é.
—Que eu tenho que abrir a oficina às sete.
—Pois é.
Fica na porta. Os dois sabemos que há um passo a dar e nenhum dá. No fim ele dá, pela metade.
—Bem. Obrigada pelo gelo.
—Obrigado pela cerveja.
—Estava morna.
—Eu sei.
Ele vai. Fecho a porta. Fico de pé no corredor, com a luz acesa, olhando a porta como uma idiota. Depois me viro e vou para a cama.
E não durmo.
Às sete e um quarto desço à rua. O dia já está ardendo. A dona Bích varre na frente da banca e me olha de cima a baixo.
—Bom dia, cô.
—Bom dia. —Ela deixa a vassoura—. Ontem à noite havia duas velas no seu balcão, Thu.
—Sim.
—E hoje de manhã há uma.
—Acabou.
—Pois é —diz, e sorri com toda a boca—. Pois é.
Entro no cà phê e ponho o avental. Sirvo cafés. Às nove, um rapaz traz uma moto e diz que a deixe na oficina do beco de trás. Às dez, a dona Hạnh me manda comprar gelo e eu pego o caminho longo, o que passa pelo 7.
A oficina tem a persiana pela metade. Dentro há três motos desmontadas e um ventilador de pé girando. Ele está agachado junto a uma roda, com as mãos negras de graxa, e quando me vê levanta a cabeça e tudo nele para.
—Oi —digo.
—Oi.
—Você conserta rodas?
—Conserto o que me trouxerem.
—Então me traz… —Olho em volta. Não me vem nada—. Me traz um café com leite.
—Aqui não servimos café.
—Pois é. Mas eu sirvo.
Ele ri. Limpa as mãos num trapo e não se aproxima.
—Thu.
—O quê?
—Que se você ficar aqui parada, o pessoal do beco vai saber do balcão em duas horas.
—Então que saibam.
—E hoje à noite você vai ter que dar comida aos gatos comigo.
—Oito gatos, Dũng. E o oitavo morde.
—Eu sei. Ele me mordeu na terça.
Fico olhando para ele. Ele também. E naquele momento, enquanto os dois nos olhamos sem saber o que fazer com a luz do dia em cima, a dona Bích tosse duas casas adiante, forte, de propósito, e os dois nos viramos para o mesmo lugar.
—Bom dia, cô Bích —dizemos ao mesmo tempo.
—Bom dia —diz ela, e continua varrendo, e não para de sorrir a manhã inteira.
Naquela noite, às onze, desço com a tigela de arroz. Ele já está no beco, apoiado na parede, com os chinelos azuis nos pés.
—Cinco —digo, contando os gatos que chegam.
—Seis.
—Sete.
—Oito.
E o oitavo, o malhado da orelha partida, chega por último, olha para nós dois, e se enfia entre as pernas de Dũng como se já soubesse de quem é.
—Já está —digo.
—Já está.
E ficamos ali, na rua das flores de leite, com o calor colado na nuca e a luz dos postes em cima, sem nos fazer de desconhecidos nem um minuto mais.